Paula Previato Roja - Psicóloga - CRP 06/36321

Bordando a vida

 

    Um dia desses estive pensando sobre a vida, sobre evolução e amadurecimento. Acredito na continuidade da vida, em novas oportunidades de experiências e acredito no desenvolvimento embora perceba como é difícil mudar, a meu ver evoluir leva uma eternidade.

    Faço uma analogia com um tecido bordado, creio que todos já viram um bordado feito a mão e muitos não sabem como é feito e o que envolve todo aquele trabalho. Quem gosta de costura e bordado poderá visualizar com facilidade o tecido e sua trama, as linhas, os pontos, a agulha, os desenhos, o acabamento e a finalização.

    Olhando sob a perspectiva da vida vou buscar C.G.Jung quando diz que a primeira metade passamos tecendo um bordado na parte direita do trabalho, na direção da construção do Ego, e na segunda tecemos o caminho de volta, mas dessa vez pelo avesso, na direção do Self. O lado direito tende a ficar mais bonito e colorido e quanto mais habilidade a bordadeira tiver melhor e mais bonito ficará o trabalho.

    Na primeira metade da vida trabalhamos na construção de uma imagem, uma estrutura que seja aceita por si e pelo grupo social. Temos que estudar e escolher uma profissão, ganhar dinheiro, adquirir bens, relacionamentos e tudo que possa representar sucesso. Vivemos numa roda de necessidades cada vez maior, convivendo com cobranças, frustrações, decepções, medo do fracasso, ansiedade e depressão.

    Pela perspectiva da bordadeira este processo envolve a escolha do desenho, pontos e linhas que serão empregados. Mas há vários detalhes neste processo, temos que escolher o tecido certo, acertar as bordas, lavar, tirar a goma e passá-lo a ferro. Temos que alinhavar, definir as margens, o centro e onde será executado o trabalho. Temos que traçar o desenho, escolher a melhor linha e agulha e separar todo material para só depois iniciá-lo. Não é tão simples quanto parece, é trabalhoso e requer dedicação.

    Da mesma forma na vida, se houver preparo na escolha, toda a jornada terá um resultado muito melhor. Escolher uma direção requer atenção e nem sempre isso é possível. Muitos são jogados sem sequer ter a chance de pensar, precisam sair fazendo alguma coisa pela sobrevivência, precisam sair bordando de qualquer jeito, com os recursos que tiverem disponíveis naquele momento. Creio que poucos conseguem se preparar para esta jornada.

    Jung escreve que quando chegamos por volta dos 50 anos entramos na zona dos arquétipos e aí começamos o caminho de volta na direção do Self, o arquétipo do centro. Há duas possibilidades, fuga e enfrentamento. Fugir traz o envelhecimento e a morte e o enfrentamento traz o amadurecimento.

    O amadurecimento ocorre no caminho de volta, quando trabalhamos com o lado avesso do bordado. Neste lado nós podemos ver os arremates, os pontos mau feitos, os atalhos e erros cometidos.

    Não é nada fácil fazer isso, olhar para as escolhas feitas, ver os erros e acertos, as falhas, as finalizações, etc. Significa tecer uma crítica a si mesmo, é um ato de coragem. Avaliar o trabalho traz crescimento, podemos aprender mais, ver que tal ponto poderia ter sido feito de forma diferente ou ter escolhido outro ponto. As bordadeiras saberão o significado de “avesso perfeito”, quando pegamos um bordado na mão vamos logo olhando o avesso, pois é por ali que se conhece a bordadeira.

    Um bom bordado tem que ser feito ponto a ponto, olhando o avesso e corrigindo os erros imediatamente, pois quando o trabalho estiver mais adiantado ficará difícil voltar atrás. Quanto mais habilidade a bordadeira tiver melhor ficará o trabalho e quanto mais se borda mais habilidade se adquire.

   Se pudéssemos corrigir nossos erros no exato momento que os cometemos a vida seria muito melhor, se olhássemos as consequências de cada escolha seria mais fácil corrigir.

    Quando chegamos ao mundo somos apenas unidade e aos poucos vamos saindo na direção do Ego, na direção do outro, do mundo externo. A própria vida exerce uma força atrativa para o mundo de fora, o mundo das relações humanas. Ao final devemos voltar para o lugar de origem, mas mais amadurecidos, com experiência agregada, assim é o que se espera. O caminho de volta leva na direção do Self, no mais profundo encontro consigo mesmo, da individualidade, da unidade.

    Podemos comparar os vários bordados com as vidas sucessivas, quanto maior o número de trabalhos mais pontos são aprendidos, mais habilidade em cada etapa, do início à finalização. E as experiências sucessivas produzem o mesmo resultado, produzem habilidade e cada vez mais nos apropriamos do conhecimento adquirido.

Importante lembrar que os bordados vão ficando mais elaborados, pontos novos e mais difíceis, tecidos e linhas mais delicadas, trabalhos mais complexos, assim como as vidas sucessivas se tornam mais complexas e de maior responsabilidade.

    Meu primeiro bordado foi em um pano de prato, bordei uma cachorrinha com apenas alguns pontos diferentes, os mais básicos. Bordei bem devagar, desmanchei inúmeras vezes até que ficasse razoável. Hoje meus trabalhos ficam um pouco melhor que o primeiro mas estou longe de ser uma boa bordadeira, conheço mais pontos e até poderia ensinar um ponto ou dois a alguém iniciando mas tenho muito a aprender ainda. Lembrando que podemos levar o aprendiz somente até o ponto que já alcançamos.

    Quanto mais bordados, melhor, assim como nossas experiências de vida, quanto mais experiências, maior a habilidade em lidar com as dificuldades. Há pessoas neste mundo com uma sabedoria imensa, pessoas que ultrapassaram os limites do Ego e se doam ao mundo com verdadeiro desprendimento.

    Na segunda metade da vida está a oportunidade de crescer interiormente, de amadurecer, favorecer o crescimento da alma. Isto é possível através de um olhar criterioso e corajoso. Não é nada fácil olhar os erros cometidos, escolhas mau feitas, tecer uma crítica e saber que grande parte deste trabalho não pode ser corrigido mas é desta forma que podemos nos preparar para os próximos bordados que virão, para os próximos eventos, para as próximas vidas e quem sabe um dia, auxiliar outra pessoa em sua jornada.

 

 

20150302_222517.jpg